Apologética, 16/25: Os católicos adoram as imagens?

Contra as imagens há passagens como Êxodo 20,4-5 e o Salmo 115,12-17. A favor delas, temos outras como Êxodo 25,17-22; Números 21,4-9 e 1 Reis 7,29. Eis o dilema: ou interpretamos bem essas passagens ou diremos erros grotescos sobre a Bíblia, entre outros que Deus não sabe o que quer nem o que manda. Logicamente, como Deus é Deus, ele é onisciente; longe, portanto, de Deus o contradizer-se. Para resolver a questão deve-se afirmar que podem ser feitas as imagens que servem para o culto divino, que favorecem a devoção do povo para com o verdadeiro e único Deus que existe. Não podem ser feitas aquelas imagens que se destinam à idolatria. Ora, as imagens sagradas que se realizam no cristianismo, evidentemente, não se destinam à idolatria. Não são ídolos e nem são adorados! São respeitados, valorizados. Exatamente isso significa cultuar os santos. Além do mais, vendo suas representações pensamos neles mesmos e nossa mente, como num movimento instantâneo, vai ao encontro desses nossos irmãos que se encontram na presença de Deus para pedir-lhes que intercedam por nós (cf. Ap 6,9-10; 8,4).

E o que é idolatria? É reconhecer uma criatura como criador e prestar-lhe a homenagem que é devida somente a Deus. Como a palavra “idolatria” evoca: trata-se de um “culto de latria aos ídolos”. A “latria” é um tipo de culto muito peculiar, significa adoração no sentido mais estrito da palavra. Além disso, o culto que nós damos ao verdadeiro Deus, sendo de latria não é uma idolatria porque Deus não é um ídolo; O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó é, de fato, o único Deus que existe.

Os anjos (querubins) que Deus mandou fazer no Antigo Testamento; os santos (pessoas que seguiram fielmente Jesus Cristo durante a sua vida mortal) que a Igreja Católica artisticamente faz, em forma de pinturas e esculturas; os enfeites pictóricos que nós vemos em nossas igrejas e templos; não são ídolos. De fato, até os evangélicos luteranos, na Alemanha, têm imagens em seus templos. Fique bem claro: não são ídolos! Tampouco são adorados! Não reconhecemos que a Virgem Maria, os demais santos ou os anjos são deuses, não reconhecemos que eles devem ser adorados, não os reconhecemos como nossos criadores. Mas, fica ainda uma pergunta: podemos cultuar tais imagens? Depende. O que entendemos por “culto” e quais são os tipos de culto? Culto vem de collere, palavra latina que significa cultivar; neste caso, “cultivar o sagrado”, valorizá-lo. Tudo aquilo que tenha uma relação com Deus, nós costumamos chamar realidades sagradas: neste sentido, existem pessoas sagradas porque foram consagradas a Deus pelo batismo e existem objetos sagrados porque servem para dar glória a Deus, por exemplo, os nossos templos.

Em geral, nós cultivamos as pessoas, “damos culto” às pessoas ao valorizá-las, ao estima-las, ao respeitá-las. Logicamente, esse tipo de culto não é o culto de latria, não é uma idolatria. Tampouco pode ser qualificada de idolatria o culto (a homenagem) que nós rendemos à bandeira nacional ou à foto dos nossos pais.

A Igreja distingue três tipos de culto: a latria, que é a adoração que se presta ao Deus uno e trino; a hiperdulia, que é uma veneração (homenagem) especial que se presta à Mãe de Deus (pois Jesus é Deus), a sua função na história da salvação da humanidade foi tão importante que nós com carinho lhe prestamos uma homenagem especial; a dulia, que é uma simples veneração (homenagem) prestada aos cristãos que viveram de maneira fidelíssima da Palavra de Deus e aos anjos bons, servos fiéis do Senhor. Assim como numa família se presta homenagem à memória dos antepassados, nós somos na Igreja uma família, a família dos filhos de Deus, e, por isso, prestamos homenagem à memória dos nossos santos antepassados.

Uma pessoa quando se encontra diante de uma foto, de uma escultura, de uma pintura dessas pessoas santas (cf. 1 Coríntios 1,2; Filipenses 1,1; Colossenses 1,2) não detém a sua mente na imagem enquanto “feita de determinado material”, mas a sua mente vai à origem, ao arquétipo. Da mesma maneira, quando vemos uma foto da nossa mãe não pensamos na foto enquanto tal, mas na nossa mãe que está figurada na foto. A honra que os fiéis prestam às imagens são honras prestadas aos que estão figurados nelas, isto é, aos fiéis de Jesus Cristo, que intercedem (cf. João 2,1-12; Apocalipse 6,9-11; Apocalipse 14,12) por nós, os fiéis que estamos em busca da meta que eles já alcançaram, o céu.

O Verbo se fez carne e já habita em nós” (Jo 1,14). Habita totalmente pela fé em nossos corações, habita em nossa memória, habita no pensamento e chega a descer até a imaginação. Que poderia antes o homem pensar sobre Deus, a não ser talvez fabricando um ídolo no coração? Era incompreensível e inacessível, invisível e inteiramente impensável; agora, porém, quis ser compreendido, quis ser visto, quis ser pensado” (S. Bernardo de Claraval). Por isso, no Antigo Testamento, o fazer imagens era muito restrito: Deus permitia algumas, de vez em quando e de maneira pedagógica. Mas no Novo Testamento, quando já temos Jesus Cristo, imagem do Pai, é possível fazer várias sagradas imagens. O Antigo é preparação para o Testamento no sangue de Jesus. Por isso, o Concílio de Nicéia II (787) sentenciou solenemente: “Indo pelo caminho real, seguindo o ensino divinamente inspirado dos nossos santos Padres, e da tradição da Igreja Católica – da qual reconhecemos que o Espírito Santo habita nela –, definimos com exatidão e cuidado que, de modo semelhante à imagem da preciosa e vivificante cruz, devem ser expostas as sagradas e santas imagens, tanto as pintadas como as de mosaico e de outra matéria conveniente, nas santas igrejas de Deus, nos sagrados vasos e nos paramentos, nas paredes e nos quadros, nas casas e nos caminhos; tanto as de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo, como as de Nossa Senhora Imaculada a Santa Mãe de Deus, dos preciosos anjos e de todos os varões santos e justos” (DH 600).

O que vamos dizer agora, poderia parecer uma exceção ao que foi dito até agora, mas, na verdade, quando bem pensado, é apenas uma continuação lógica do que dissemos. Segundo Santo Tomás de Aquino (S. Th. III, 25), apenas aos seres racionais se dá alguma reverência; às coisas, nenhuma, a não ser em razão da natureza racional; nesse sentido, diz Tomás de Aquino, que quando os homens veneravam as vestes do rei queriam simbolizar através desse ato uma veneração ao mesmo rei. Existe um segundo tipo de veneração que se pode dar a uma coisa: aquela que se dá em razão da união que guarda com a realidade enquanto que a realidade entrou em contato (físico) com a imagem. Se nos referimos à mesma Cruz na qual Cristo foi crucificado, pensamos no Cristo nela extendido, a Cruz entrou em contato com os membros santíssimos de Cristo, nela o seu Sangue preciosíssimo foi derramado. Portanto, à Cruz na qual Cristo foi crucificado devemos dar adoração de latria. O que acontece é que, enquanto às outras imagens de Cristo, adoramos com adoração de latria somente em razão desse movimento segundo o qual a nossa alma não fica parada na imagem, mas se dirige à mesma realidade, que é a Pessoa de Cristo, a Cruz na qual Cristo foi crucificado tem também um significado todo especial a causa do contato com os membros santíssimos do único Redendor dos homens, Jesus Cristo. A Igreja adora a Santa Cruz porque vê nela não o objeto material em si, mas o que ela significa, Jesus Cristo crucificado, nosso único Salvador.

E se alguém se escandaliza ainda com essa expressão, talvez bastaria citar a São Paulo: “mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas, para os eleitos – quer judeus quer gregos –, força de Deus e sabedoria de Deus” (1 Cor 1,23-24). E a Igreja diz: “Crucem tuam adoramus, Domine, et sanctam ressurrectionem tuam laudamus et glorificamus: ecce enim propter lignum venit gaudium in universo mundo: adoramos, Senhor, a tua Cruz, e louvamos e glorificamos a tua santa ressurreição: por causa do lenho da Cruz vem a todo o mundo o gozo” (Ant.1ª para ser cantada enquato se adora a Santa Cruz).

(“Livro” interessante para a leitura: Suma de Teologia, Parte III, questão 25.)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 16/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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