Apologética, 17/25: Será que invocar os santos é necromancia?

Necromancia significa “adivinhação através de um falecido” (nekrós, falecido; mantéia, adivinhação). O livro de Levítico proíbe esta prática: “Não vos voltarei para os necromantes nem consultareis os adivinhos, pois eles vos contaminariam” (Lv 19,31). O mesmo se diga de Dt 18,10-14; 2 Re 17,17; 1 Sm 28,3-25; 1 Cr 10,13-14. No Novo Testamento, a adivinhação aparece condenada também, porém não se fala tanto da adivinhação através dos mortos, contudo a prática da adivinhação continua condenada (cf. At 13,6-12; 19,11-20; Gl 5,20-21). O Magistério da Igreja condenou várias vezes o espiritismo e sua evocação dos mortos, por exemplo no dia 24 de abril de 1917: é ilícito “assistir a sessões ou manifestações espiritistas, sejam elas realizadas ou não com o auxílio de um médium, com ou sem hipnotismo, sejam quais forem estas sessões ou manifestações, mesmo que aparentemente simulem honestidade ou piedade; quer interrogando almas ou espíritos, ou ouvindo-lhes as respostas, quer assistindo a elas com o pretexto tácito ou expresso de não querer ter qualquer relação com espíritos malignos” (DH, 3642).

É necessário por tanto afirmar categoricamente que a evocação dos mortos ou necromancia está terminantemente proibido aos cristãos que querem viver plenamente em Jesus Cristo e em sua Igreja. Não se pode conciliar a fé e a esperança em Deus com tais curiosidade que levam a viver na ilusão de comunicação com espíritos do além com o intuito de adivinhar. Quando a Escritura fala que os judeus se contaminariam se realizassem a necromancia, ainda que se refira a certa impureza legal, a contaminação mais forte é a de entrar em contato com demônios. Certamente: Deus não vai permitir que as almas das pessoas voltem para ficar satisfazendo as curiosidades dos que ainda vivem aqui na terra, logo quem comunica tais mensagens e ilude as pessoas são os demônios, os quais se disfarçam de almas comunicantes para os vivos que os evocam. Podem ser fenômenos sobrenaturais os de comunicação com os mortos na necromancia? Claro que podem ser, porém o diálogo real não é com uma alma, mas com demônios disfarçados de almas. E isso é certamente muito perigoso e contaminador, pois ficam as más influências desses momentos sobrenaturais. Definitivamente, não é possível ser católico e espírita ao mesmo tempo e, por isso, não se deve evocar os mortos.

Outra coisa é invocação dos santos, a qual se insere no mistério da comunhão, que é a Igreja, que nós professamos no Credo: “Creio na comunhão dos santos”. Além de Jesus, que morreu e ressuscitou e se comunicou com os seus discípulos após tais acontecimentos, várias aparições de Nossa Senhora e de santos já foram reconhecidas pela piedade cristã e pelo Magistério, sem por isso tal a comunicação seja configurada como necromancia. Se alguma vez, alguma alma do purgatório apareceu a algum santo pedindo oração, tal aparição foi com a aprovação de Deus. Santa Teresa relata no livro sobre sua “Vida” que vários santos, os quais já haviam falecido, lhe apareciam, por exemplo, São Pedro de Alcântara, que Santa Teresa tinha como grande santos, um ano antes de morrer, estando ausente, apareceu à Santa Teresa e, depois de sua morte, a Santa de Ávila o viu várias vezes com imensa glória. (Cf. XXVIII,16-21).

Invocar os santos é continuar a conversa que eles tinham conosco aqui na terra quando estavam entre nós; são nossos irmãos e, como estão mais perto de Jesus, ele continuam pedindo a Deus pelas nossas necessidades. Isso não tem nada a ver nem evocação ou necromancia. Mais ainda, os santos, amigos de Deus, intercedem por nós e, portanto, não é verdade que depois da morte eles ficam dormindo até a Ressurreição (mentalidade protestante). Hb 9,27 diz que “está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo”. E com o juízo particular, vem prêmio (céu) ou castigo (inferno). Depois, no juízo universal (cf. Mt 25,31-46), apareceremos diante de Deus com os nossos corpos e será ratificada a sentença que já tínhamos recebido anteriormente, só que agora com todo o caudal de bens ou de males que durante o curso da história os nossos atos produziram.

Jesus disse ao bom ladrão: “em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43). O texto grego não põe vírgula nem dois pontos entre as palavras “hoje estarás comigo no paraíso”, veja: sémeron met’ emou em tõ paradeiso. O grego tem uma vírgula logo após “em verdade vos digo,”; em português costumamos colocar dois pontos, como se pode ver no texto acima. É bom falar da falta de vírgula ou dos dois pontos no texto original porque alguns protestantes querem entender essa passagem da seguinte maneira: “eu te digo hoje: estará comigo no paraíso”. Tal interpretação é falsa, não está de acordo com a língua do Novo Testamento, que é o grego. O latim da Neovulgata traduz corretamente o texto grego: “Hodie mecum eris in paradiso”.

O livro do Apocalipse tem duas passagens que são altamente significativas para o nosso propósito: “quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos homens imolados por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho de eram depositários” (Ap 6,9); eles clamavam justiça (cf. Ap 6,10). A outra passagem apresenta o incenso e a oração dos santos sendo oferecidas a Deus: “a fumaça dos perfumes subiu da mão do anjo com as orações dos santos, diante de Deus” (Ap 8,4).

No Antigo Testamento, Eliseu fez milagres até depois da morte: quando um grupo de pessoas ia enterrar um homem, jogaram-no no túmulo de Eliseu e “o morto, ao tocar os ossos de Eliseu, voltou à vida, e pôs-se em pé” (2 Re 13,20-21). Por quê? Porque Deus queria manifestar a sua glória através de Eliseu mesmo depois de sua morte; Eliseu foi um homem santo que vivera totalmente voltado ao serviço divino.

As catacumbas romanas são o testemunho de que já nos primeiros séculos do cristianismo, os cristãos tinham o costume de venerar os corpos de alguns mártires e de alguns papas. Esses lugares convertiam-se na prática em oratórios. Um bispo cristão do século IV escrevia: “comemorarmos os que adormeceram no Senhor antes de nós: patriarcas, profetas, Apóstolos e mártires, para que Deus, por suas intercessões e orações, se digne receber as nossas” (Cirilo de Jerusalém, Catequeses Mistagógicas). A festa de todos os santos começou quando o Papa Bonifácio IV converteu o Panteão (templo em honra de todos os deuses) em igreja de todos os santos, no século VII.

Bernardo de Claraval, do século XII, perguntava num sermão: “para que louvar os santos, para que glorifica-los? Para que, enfim, esta solenidade? Que lhes importam as honras terrenas, a eles que, segundo a promessa do Filho, o mesmo Pai celeste glorifica? De que lhes servem nossos elogios? Os santos não precisam de nossas homenagens, nem lhes vale nossa devoção. Se veneramos os Santos, sem dúvida nenhuma, o interesse é nosso, não deles. Eu por mim, confesso, ao recordar-me deles, sinto acender um desejo veemente” (S. Bernardo, Sermo 2, em Liturgia das Horas, IV, 1º de novembro, segunda leitura).

Deus quer que nós sejamos santos e os nossos irmãos e irmãs que já estão com Cristo desejam ajudar-nos a viver em santidade, isto é, na felicidade. Já o Apóstolo Paulo fala que os fieis da Igreja que estavam em Corinto eram “santificados em Jesus Cristo, chamados à santidade” (1 Cor 1,2). Todos nós fomos predestinados “para sermos santos” (Ef 1,4). Ao escrever ao Filipenses, São Paulo fala se dirige “a todos os santos em Jesus Cristo” (Fil 1,1). Os santos da Igreja Católica são, portanto, homens e mulheres que amaram muito a Deus e cuja vida continua servindo de exemplo para nós. Também nós podemos e devemos ser santos porque fomos batizados: vivemos a vida de Cristo.

A comunhão dos santos é um artigo da nossa fé e o Catecismo fala dele nos números 946-962. Dizemos no Credo: “Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém”. A própria Igreja é Comunhão dos santos: uma comum-união de realidade santas (fé, sacramentos, carismas, caridade) e de pessoas santas entre os três estados nos quais a própria Igreja existe (glorioso, padecente, peregrino). Somos uma família que tem um “fundo comum” de bem espirituais que são partilhados entre nós. Vivamos a comunhão dos santos em união com toda a Igreja e com todos os irmãos no mundo inteiro. Que os santos todos rezem a Deus por nós para que consigamos mais facilmente a sua misericórdia.

(“Livro” interessante para a leitura: Catecismo da Igreja Católica, 1ª parte, comentário ao Credo)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 17/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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