Apologética, 18/25: De onde vem essa ideia de purgatório?

Para começar, é uma questão de bom senso já que no céu entram apenas os santos. Vejamos: quando morrermos, provavelmente não seremos nem santos a tal ponto de irmos direto ao céu, nem tão pecadores (em pecado mortal) a tal ponto de sermos lançados lá. Logo deve ter um estado intermédio entre o céu e o inferno ou então… Para onde iríamos? Como se daria a nossa purificação?

Em segundo lugar, admito que as passagens bíblicas que expressam o que significa o purgatório são escassas, e, contudo, a Igreja, desde o começo rezou pelos fiéis defuntos. Tertuliano, no século III, fala que a prática de orar pelo defuntos é muito antiga e cita até o caso de uma mulher que orava pela alma de seu marido e o costume de fazer memória anual dos defuntos. No entanto será sobretudo entre os pensadores de Alexandria que será proposta a ideia da aplicação de um fogo para purificar os pecadores após a morte. Efetivamente, há consciência de que há fieis que morrem com um união muito grande a Deus e os demais tendem a pedir que eles intercedam pelos que aqui ficaram; juntamente com essa percepção, existe aquela de que alguns fiéis, ainda que não sejam maus, não se encontram em uma santidade que os leve ainda a gozar da visão da face de Deus. São Clemente de Alexandria afirma a existência do  “phoniron”, o fogo discriminante, que não é como o fogo comum aqui da terra, mas uma realidade que penetraria a alma levando-a ao arrependimento (Strom. VII, 12,78,3). O problema da teoria de Clemente é afirmar um arrependimento na outra vida, dando a ideia de que o inferno, ele mesmo, seria temporal. E, contudo, a ideia de uma fogo purificador que nos limparia permanecerá como elemento tradicional que explica o porquê os fiéis rezavam e ofereciam oblações pelos que já morreram, ou seja, a explicação teológica do século III é um porquê da praxe da Igreja de rezar pelos mortos.

A partir do século III, a documentação é abundante sobre o purgatório: Orígenes fala de um “fogo sábio” que purifica, São Gregório de Nissa (séc. IV) fala também sobre o “fogo purificador”; os santos Basílio e Cirilo de Alexandria também falam da purificação depois da morte. Este texto de São Cirilo de Jerusalém (séc. IV) é muito claro: “Rezamos [na Eucaristia] pelos santos padres e bispos que dormiram, e em geral por todos os que dormiram antes de nós, na crença de que aproveita grandiosamente às almas pelas quais oferecemos as orações, enquanto a vítima santa e magnífica está presente… Da mesma maneira, oferecendo a Deus as nossas orações por aqueles já dormiram e pecaram, oferecemos a Cristo, sacrificado pelos pecados de todos, e, ao fazê-lo, conseguimos o favor de Deus amoroso por ele e por nós” (Catequeses Mistagógicas 5,9-10). Os Padres latinos pensam de maneira semelhante: São Cipriano fala da purificação ultraterrenal, Santo Agostinho fala do “ignis purgationis” e diz que “Quando se oferecem os sacrifícios, seja o do altar, seja de qualquer classe de esmolas por todos os batizados defuntos, acontece que, no que diz respeito, aos que são muito bons, são ações de graças; com relação aos que não são muito maus, são propiciações; com relação aos muito maus, ainda que não sejam ajuda nenhuma para o mortos, são certos consolos para os vivos” (Ench. XXIX, 110).

Esta foi a linha constante da Tradição sobre os irmãos que morrem necessitados de purificação. Somente no século XVI esta doutrina vai ser fortemente criticada por Martinho Lutero com estas palavras: “O purgatório e todas as pompas, serviços e negócios associados com ele devem ser considerados como nada mais que ilusões do demônio, porque o purgatório é contrário ao artigo fundamental que somente Cristo, e não a obra de outro homem, pode auxiliar as almas. Além do mais, nada nos foi mandado ou recomendado com referência aos defuntos” (Esmalcada, Art. II, 1536). Como se pode ver, Lutero nega o purgatório por dois princípios: 1) as obras humanas nada valem para ajudar ninguém e prejudicam a centralidade de Cristo; 2) o purgatório não está na Bíblia.

Para rebater o primeiro princípio, basta fugir da antropologia pessimista de Lutero e ler algumas passagens na Sagrada Escritura para redescobrir a bondade da criação e como Deus conta conosco na obra da salvação. Daniel, por exemplo, escutou as seguintes palavras que confirmam esta nossa afirmação: “Desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender, mortificando-te diante do teu Deus, tuas palavras foram ouvidas” (Dn 10,12). Deus leva tão a sério as nossas obras que vai nos julgar por elas (cf. 2 Cor 5,10). O Apóstolo São Tiago declara solenemente: “é morta a fé sem as obras” (Tg 2,26). Por último, a oração dos santos tanto valem que são postas junto ao incenso para serem oferecidas diante de Deus (cf. Ap 8,3).

O fato que a palavra “purgatório” não esteja na Bíblia não significa que a realidade de uma purificação depois da morte, que é o que significa purgatório, não esteja na Escritura Sagrada.

Vejamos, o “sheol” (she´ôl), em grego “hades” é diferente da “geena”. Vejamos, os antigos dividiam o mundo em três níveis: céu, terra, mundo subterrâneo (sheol). Portanto, o sheol é apresentado como uma realidade que faz parte deste nosso universo, algo temporal, porém lugar de sofrimentos (cf. Dt 32,22; Sl 49,15; 88,5-13; 116,3; 1 Re 2,6.9; 1 Sm 2,6; Pr 15,24; 23,14; Is 7,11). Ainda que a “geena” (em hebraico “gehinnom” = “vale do filho de Enom”) seja um desenvolvimento do “sheol” na concepção bíblica, permanece sempre distinto dele. Na verdade, enquanto o sheol era um lugar no subterrâneo da terra para o qual se pode descem em paz (cf. 1 Re 2,6), a geena é um lugar que findava Jerusalém, um vale amaldiçoado por Jeremias como lugar de morte e corrupção (cf. Jr 7,32; 19,6s) porque lá estava o altar de Moloc e se oferecia sacrifícios humanos. A “geena” passou a ser então um vale difamado, lugar maldito e local onde os corpos dos rebeldes a Deus devem permanecer de tal maneira que “o seu verme não morrerá e o seu fogo não se apagará” (Is 66,24). Será a partir da noção de “geena” que Deus revelará um estado de separação total do Senhor que é ao mesmo tempo um “lugar” de sofrimentos eternos (cf. Mt 5,22; 18,8; 25,41; Mc 9,43; Lc 12,5; Ap 19,20).

Do que foi dito, fica claro que a Sagrada Escritura distingue o “sheol” – onde os justos podem descer e lá permanecer em paz, mas não exclui que este seja um lugar de sofrimentos – da “geena”, local dos condenados com sofrimentos eternos. Sendo assim, por mais que a Escritura não fale do purgatório, já nos dá a ideia de que existe um estado no qual as almas podem ir em paz (sem pecado mortal), porém entre sofrimentos (purificadores). Mais ainda, os judeus acreditavam que se pode rezar pelos mortos como sinal de esperança na ressurreição e como modo de os defuntos serem absolvidos de seus pecados (cf. 2 Mc 12,38-46).

São Paulo, por sua vez, fala que o fundamento da nossa vida é Jesus Cristo e que é sobre esta base que todo cristão deve construir; porém cada um de nós pode realizar esta construção com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha. Como saber como foi a nossa construção? Através do fogo purificador. É interessante observar que este fogo é diferente do fogo do inferno, pois enquanto o fogo infernal é sofrimento eterno, a Igreja afirma que o fogo do purgatório é purificador e manifestativo da qualidade das nossas obras. No fundo, o purgatório é um estado pelo qual os mortos demoram em purificar-se no fogo de Deus, que é o próprio Espírito Santo, o Amor em Deus (cf. Hb 12,29): ao passarem pelo fogo purificador, são queimadas em nós todas as obras imperfeitas, simbolizadas por qualquer material que não seja ouro, prata ou pedras preciosas. Os santos, ao contrário, acostumados ao fogo de  Deus que arde em seus corações e, consequentemente, a uma grande perfeição aqui na terra, ao serem julgados e passarem pelo fogo santo – “Deus é um fogo abrasador” (Hb 12,29) – não sentirão sofrimento algum ou sentirão muito pouco (algo de purgatório) e se unirão eternamente a Deus numa felicidade indescritível, eterna, o céu.

Mais ainda: quando nos confessamos são-nos perdoados todos os pecados, mas perdoada a culpa fica a pena, ou parte dela; logicamente não fica a pena eterna, que seria o inferno. Permanece a pena temporal, pela qual merecemos entrar num estado de purificação (purgatório). Para aqueles fiéis que se encontram nesse estado, a Igreja lhe ajuda com as indulgências. As indulgências são aplicações dos méritos de Cristo e dos Santos para que sejam retiradas de nós ou daquelas almas a pena temporal merecida pelos pecados. Uma indulgência pode ser plenária, que retira toda a pena temporal merecida, ou parcial, que a retira só em parte. Para ganhar uma indulgência plenária (somente uma cada dia) é necessário: 1) confessar-se (com uma só confissão é possível ganhar várias indulgências); 2) comungar no dia em que se realiza a obra com a qual se merece a indulgência plenária; 3) realizar a obra indulgenciada estando em estado de graça (sem nenhum pecado mortal desde a última confissão bem feita); 4) desapego de todos os pecados, inclusive dos veniais; 5) rezar nas intenções do Santo Padre, o Papa. Em concreto, durante o mês dos finados, novembro, concede-se indulgência plenária aplicável somente às almas do purgatório: 1º) aos fiéis que visitarem devotamente o cemitério, do dia 1º ao dia 8º de novembro, e rezarem pelos fiéis defuntos; 2º) aos fiéis que, no dia em que se celebra a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (2 de novembro), visitarem piedosamente a igreja ou oratório. Nesta piedosa visita recita-se o Pai-Nosso e o Credo. Fora o mês de novembro, há outras várias ocasiões nas quais a Igreja concede indulgências plenárias; neste sentido, vale a pena consultar o Manual das Indulgências da Igreja Católica, livro não muito difícil de ser encontrado.

(“Livro” interessante para a leitura: Henrique SOARES DA COSTA, Sobre o fim do mundo, São Paulo: Cléofas, 2017, 128 p.)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 18/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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