Apologética, 19/25: O Papa e a Besta

O fato de que houve alguns papas na história da Igreja que foram bastante bestas ou que você mesmo que me lê neste momento talvez seja um tanto besta, não significa nem que o Papa seja a besta do Apocalipse nem que você o seja. Estamos acostumados a ver os papas como pessoas que estão atentos às necessidades dos outros, homens de oração, sempre procurando a paz das nações. Como compará-lo com aquele mostro descrito em Ap 13,11-18? Algo absurdo e indigno.

Em primeiro lugar, há que dizer que o livro do Apocalipse é um livro de revelação através de visões proféticas. Isto é, Deus comunica grandes verdades ao seu povo, porém de maneira misteriosa, enigmáticas, com imagens que não devem ser interpretadas literalmente, já tais imagens o são das realidades que Deus quis revelar através dela. Com o qual será preciso entrar na linguagem significativa de tais imagens bíblicas, sem se deter apenas no “imaginário”. Em segundo lugar, há duas bestas no Apocalipse que se pospõem ao grande dragão descrito em Ap 12. O Dragão passa seu poder à Besta do mar, a qual transmite algo de sua autoridade à Besta da terra. Seria esta segunda Besta, a da terra, que alguns ousaram identificar com o papa. Se fôssemos levar esta passagem literalmente, o Papa deveria ser bem monstruoso em seu aspecto físico, promover a adoração da primeira Besta, operar grandes maravilhas, fazer descer fogo do céu e promover o número da besta, que é 666. Quem olha para a figura do Papa, imediatamente descobre que a acusação é evidentemente falsa.

Contudo eles se baseiam no número 666 para afirmarem que o Papa é a besta: o número da besta “é o número de um homem: seu número é 666!” (Ap 13,18). E aqui já começa a primeira falha dos anti-papais, porque Papas houve mais de 260 nos últimos dois milênios… Qual desses seria a besta? Acaso não diz a Escritura que é o número de um homem? Como colocar este “um homem” comparados com mais de 260 homens? Será que não sabem que “Papa” na Igreja Católica é nome de um cargo, não de um homem? Será que não entendem que o Papa é o sucessor de Pedro e não o sucessor de uma Besta? Por vezes, as ideias desses acusadores parecem tão ridículas quanto absurdas são as suas ideias.

Se disserem que o Papa é chamado o “vigário do Filho de Deus” e que os as letras em latim tem valor e que somando esses valores das letras latinas dará o número 666, veremos que esses argumento são falhos pelo erro da primeira premissa: o Papa não é chamado “vigário do Filho de Deus”, mas “vigário de Cristo”. Contudo aceitemos que “vicarius Filii Dei” em latim dê 666, vejamos que outros nomes também dão 666. Vejamos através dos números entre parêntese depois de cada letra, somemos esses valores e veremos que o resultado é 666.

Vicarius Filii Dei = V (5) I (1) C (100) A (-) R (-) I (1) U (5) S (-) F (-) I (1) L (50) I (1) I (1) D (500) E (-) I (1) = 666.

Ludovicus (Luis) = L (5O) U (5) D (500) O (-) V (5) I (1) C (100) U (5) S (-) = 666.

Ellen Gould White, a “profetisa” adventistas do sétimo dia = E (-) L (50) L (50) E (-) N (-) G (-) O (-) U (5) L (50) D (500) W (5 + 5) H (-) I (1) T (-) E (-) = 666.

Contudo Cesar Nero, o imperador romano da época dos Apóstolos, nesse mesmo esquema de somar números significados pelas letras também, dá o valor 666. É, portanto, mais lógico que a besta seja César Nero, já que a perseguição tinha sido feroz nos tempo desse imperador, a tal ponto de serem mortos muitos cristãos. Se você ler bem, verá que o Dragão persegue a mulher e a criança, mas quando não os consegue vencer faz guerra contra aqueles que são descendentes da mulher (cf. Ap 12,17); a Besta do Mar, por sua vez, blasfema contra Deus e sua existência significa uma grande provação para os justos a tal ponto que se lhes pede “a perseverança e a fé dos santos” (Ap 13,10); a Besta da terra seduz os habitantes da terra e os persegue de diversas maneiras (Ap 13,14-17). Acaso não é essa uma “descrição cifrada” do sofrimentos dos cristãos da época durante o governo do César Nero? Já que se os cristãos escrevessem textos nos quais se atacasse claramente o nome do perseguidor, poderiam sofrem maiores perseguições ainda, escrevem-se com linguagem cifrada, apocalíptica, isto é, com imagens que descrevem realidades.

Por mais que a Besta da época tenha sido César Nero, o termo encontra-se aberto, em certo sentido, a todo ser humano que se levanta contra Deus e sua igreja. As profecias da Escritura se referem a coisas do tempo presente dos autores sagrados, mas com abertura para os tempos vindouros. Deus não fica satisfazendo a curiosidade dos homens sobre o futuro, mas assiste os seus profetas para que possa anunciar o seu Filho Salvador em todas as épocas. Essas profecias têm uma abertura para o futuro e, no entanto, não costumam ser uma visão exata do futuro. Mais ainda, mesmo que a profecia tenha essa abertura para o futuro, uma leitura atenta do texto bíblico leva-nos a ver que nada tem a ver com a pessoa do Santo Padre, o Papa.

(“Livro” interessante para a leitura: Francisco FAUS, A ressurreição e a esperança cristã, São Paulo: Quadrante, 215, 93 p.)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 19/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

Posted in Estudos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

* Campo obrigatório