Apologética, 20/25: Celibato apostólico

Será que o celibato é uma invenção da Igreja Católica? Se considerarmos que a palavra “invenção” significa “encontro”, então o celibato foi encontrado pela Igreja Católica, já que este foi um presente que Deus deu à sua Igreja como um carisma maravilhoso, de doação e de sinal escatológico.

São Paulo pensava que Jesus ia voltar logo pela segunda vez, por isso, sem proibir o casamento, apontava sempre mais para o alto, procurando que os cristãos estivessem menos ocupados em coisas temporais e mais nas realidades espirituais. Em 1 Cor 11 ele nos deixou alguns princípios sobre o celibato, vejamos de maneira sistemática:

  • O celibato não é um preceito do Senhor, mas um conselho da autoridade eclesiástica (1 Cor 11,25) que, com o passar do tempo, será um preceito da Igreja latina;
  • A virgindade ou celibato é um bem para evitar as angústias e as preocupações (1 Cor 11,26.28). Efetivamente, se uma pessoa ativa sua sexualidade, como os prazeres da genitalidade, ficará acostumada e talvez viciada. As pessoas que não querem ter angústias e preocupações por este tema, o melhor que fazem é não ativerem a sexualidade através das relações.
  • Se o Apóstolo dá esse conselho com relação as pessoas virgens – que não se casem – fica claro que o casamento é um dever para a espécie, não o é para o indivíduo. Por outro lado, ao colocar o celibato em um nível tão elevado poderia parecer que o casamento seria um pecado; por isso o Apóstolo é bem categórico: “se te casares não pecarás” (1 Cor 11,28).
  • O casamento é para este mundo, uma figura que, como toda realidade deste mundo, está destinada a dar lugar ao “mundo futuro” (1 Cor 11,29-31).
  • A finalidade do celibato aparece como isenção de preocupações para assim cuidar das coisas do Senhor e procurar agradá-lo em tudo, semelhante ao que será no céu (1 Cor 11,32).
  • Se o casamento é bom, a virgindade pelo reino dos céus é melhor ainda (1 Cor 11,38). E, de fato, o Concílio de Trento afirmou que o celibato é melhor que o matrimônio, e fê-lo de maneira dogmática: “Se alguém disser que (…) não é melhor e mais perfeito permanecer em virgindade ou celibato que unir-se em matrimônio, seja anátema” (Concílio de Trento, sessão 24, can. 10).

Jesus Cristo não se casou. Este fato já justificaria por si mesmo a presença do celibato na vida da Igreja Católica. Além do mais, ele disse há uma virgindade pelo reino dos céus (cf. Mt 19,12); afirmou também que o não casar-se é sinal do mundo que virá, isto é, os celibatários são, pelo seu estado, “como anjos nos céus” (Mc 12,25). Por parte dos Apóstolos, vemo-los, após a ressurreição, em tantas correrias que resulta difícil conjugar todo aquele trabalho apostólico com o matrimônio e a educação dos filhos. De fato, não conhecemos nome de mulheres nem de filhos dos Apóstolos. Mesmo de Pedro, de quem sabemos que tinha sogra, não se afirma que ele tinha mulher (cf. Lc 4,38-44), provavelmente ele já era viúvo naquele então e não tivera filhos. A vivência do celibato por parte de Jesus e de seus apóstolos fez a Igreja entender que o celibato é muito conveniente para os seus clérigos e, muito tempo depois, a partir do século IV, foi decretando leis que foram se aproximando cada vez mais à atual disciplina da Igreja, especialmente no que se refere aos seus sacerdotes.

O Papa Paulo VI explicou a alta conveniência do celibato na Igreja na Carta Encíclica “Sacerdotalis Caelibatus”, sobre o celibato sacerdotal, do ano 1964. Logo na primeira parte da Encíclica, o Papa expõe as razões do celibato, ao afirmar que ele tem um significado cristológico, pois por ele os padres se parecem com Jesus Cristo, que não se casou; um significado eclesiológico, pois neste caso o padre, configurado a Cristo, único esposo da Igreja, se mostra mais visivelmente como único esposo da Igreja; um significado escatológico, o qual fica significado na vida celibatária como antecipação da vida do céu (cf. Mt 22,30). E continua o Papa: “No mundo do homem, tão absorvido nos cuidados terrenos e dominado muitas vezes pelos desejos da carne (cf.1 Jo 2,16), o precioso dom divino da continência perfeita, por amor do reino dos céus, constitui exatamente “um sinal particular dos bens celestes”, anuncia a presença na terra dos últimos tempos da salvação (cf. 1 Cor 7,29-31) com o advento dum mundo nova, e antecipa, de alguma maneira, a consumação do reino, armando os valores supremos do mesmo, que um dia hão de brilhar em todos os filhos de Deus. É, por isso, testemunho da tensão necessária do Povo de Deus orientada para a meta última da peregrinação terrestre e é incitamento para todos erguerem o olhar às coisas do alto, onde o Senhor está sentado à direita do Pai e onde a nossa vida está escondida com Cristo em Deus, até se manifestar na glória (cf. Cl 3,1-4)” (n. 34).

Contudo se, por uma infelicidade, for diminuída a estima do celibato na Igreja através do relaxamento da disciplina, ela não deixa de ser um conselho apostólico que poderá vir a ser em outros tempos voltar novamente a lei do celibato. Como lei, o celibato começa a parecer no começo do século IV, no Concílio de Elvira. A partir daí as leis abundam a favor do celibato, a tal ponto que no ano 1123, o cânon 2 do Concilio I de Latrão afirma: “Proibimos absolutamente que os presbíteros, diáconos e subdiáconos tenham a companhia de concubinas e esposas”.

(Livro interessante para a leitura: Marc OUELLET, Os amigos do Esposo, 2019.)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 20/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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