Apologética, 21/25: Maria é Mãe de Deus?

Maria é Mãe de Deus porque Jesus é Deus! Todas aquelas passagens da Sagrada Escritura que dizem que Jesus é o Filho de Deus e que ele nasceu de Maria são argumentos a favor desta verdade de fé. Ora, se Jesus é Deus e Maria é Mãe de Jesus, a conclusão necessária é que Maria é Mãe de Deus. De fato, Jesus foi “concebido no seio materno” de Maria (Lc 2,21).

Mateus (1,1) nos fala sobre a origem de Jesus de Nazaré desde um ponto de vista mais amplo, em um nível universal, pois Jesus, segundo a sua humanidade, tem a ver com a grande família humana e, de maneira mais localizada, com o Povo de Israel e, dentro dele, com a tribo de Judá. Neste segundo momento, em um nível particular, o evangelista enquadra Jesus em uma família bem concreta: a origem de Jesus é fruto da ação de Deus, da generosidade de Maria e do acolhimento de José. Finalmente, a origem de Jesus Cristo tem a ver com uma ação secretíssima de Deus – um nível íntimo – nas entranhas puríssimas da Virgem Maria, pois ela “achou-se grávida do Espírito Santo” (Mt 1,18). Esse é o tema: a humanidade de Jesus é criada, mas a realidade que sustenta esta humanidade concreta e criada é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho de Deus, a Palavra do Pai (cf. Jo 1,1-18).

No século II, os Padres da Igreja estavam de acordo que Jesus nasceu de Santa Maria Virgem e foi gerado verdadeiramente dela, “ex Maria Virgine”. Essa verdade também estava presente na piedade dos fiéis, que desde o século III rezavam aquela oração: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus, não desprezeis as súplicas que vos dirigimos em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita”. Parece que foi no Egito que surgiu a expressão Theotokos (Dei Genitrix = geradora de Deus, Mãe de Deus) para falar da maternidade divina.

No entanto, no século V, o Patriarca de Constantinopla, Nestório, opôs-se decididamente a essa verdade de fé. Ele dizia que em Cristo há duas pessoas, a humana e a divina, que se uniam através duma espécie de “pessoa de união”. Como a pessoa divina de Jesus tem como referência o próprio Pai eterno, consequentemente Maria só poderia ser Mãe da pessoa humana de Jesus. Na falsa opinião de Nestório, Maria é Mãe de Cristo (da sua pessoa humana) e não Mãe de Deus. Essa afirmação escandalizou os cristãos da época: a doutrina de Nestório vai contra a fé que nos foi transmitida pelos Apóstolos de Jesus Cristo.

São Cirilo de Alexandria, chamado “o teólogo da encarnação”, em consonância com o Papa Celestino I, defendeu com inteligência e fervor que foi o Verbo, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, quem se fez carne e que Maria é, portanto, a Mãe de Deus. O Concilio de Éfeso (ano 431) ratificou essa doutrina e esclareceu que Maria é Mãe de Deus não porque “a natureza do Verbo ou a sua divindade tivesse tido origem da Santa Virgem, mas porque dela nasceu o santo corpo dotado de alma racional, à qual o Verbo uniu-se substancialmente, e assim se diz que nasceu segundo a carne” (DZ 251). Resumindo: em Cristo há uma só Pessoa, a divina, e duas naturezas, a humana e a divina; é a Pessoa divina quem se encarna assumindo assim a natureza humana. Por outro lado, não conheço nenhuma mulher que seja mãe da natureza humana em geral, mas de Antônio, Joaquim, Maria, etc., de pessoas concretas; as mães não são mães de naturezas abstratas, mas de indivíduos. Santa Maria também, ela é Mãe de uma Pessoa, do Verbo do Pai; logicamente, não porque ela tenha gerado a Pessoa divina na eternidade, mas porque ela a gerou segundo a humanidade quando chegou a plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4), ou seja, dela nasceu o Verbo feito carne, Jesus Cristo: ela é Mãe de Deus enquanto que o Verbo fez-se carne nela.

Quando o Povo fiel soube que o Concilio de Éfeso proclamara que Maria é Mãe de Deus, encheu-se de grande júbilo. Nós também, em união com os cristãos de todos os tempos, alegramo-nos com essa verdade e damos graças a Deus porque ela também é nossa Mãe. Ela sempre nos leva a Jesus, o seu conselho é este: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Se fizermos o que a nossa Mãe nos diz seremos muito felizes nesta terra e depois iremos para o céu, para a felicidade eterna.

Como ser cristão e não ser mariano? Entende-se sem compreender. Ser cristão e não ser mariano é uma contradição! Sinceramente, é difícil compreender esses cristãos, que ao levarem o nome de Cristo não querem levar o de Maria! Não podemos ser indelicados e pouco elegantes para com Nosso Senhor desmerecendo a sua própria Mãe, aquela que ele tanto ama. Não é verdade que nós também nos sentiríamos ofendidos se alguém começasse a falar mal de nossas mães? Temo pelos que não amam Nossa Senhora.

Maria é Mãe de Deus e também é nossa Mãe, não somente porque Jesus nô-la deu aos pés da cruz (cf. Jo 19,25-27), mas também porque nós, em Cristo, já estávamos, de alguma maneira, nas entranhas puríssima de Nossa Senhora. Pensemos juntos: o Espírito Santo soprou sobre Maria e ela ficou grávida.  O Espírito Santo utilizou o barro da terra, isto é, as entranhas puríssimas da Virgem Maria, e soprou sobre esse barro virginal (cf. Gn 2,7) e fez para o Verbo eterno um corpo animado de alma racional. Essa humanidade Santíssima de Jesus Cristo, produzida em Maria, é o princípio da nossa autêntica vida, já que nele, na humanidade concreta e universal de Jesus, estávamos todos nós e, portanto, se pode afirmar que, de certo modo, também nós estávamos na barriga de Maria para sermos gerados, através dela, para a vida da graça que Jesus Cristo veio nos dar.

(Livro interessante para a leitura: São Josemaria Escrivá, o Santo Rosário, São Paulo: Quadrante)

 

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 21/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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