Apologética, 23/25: Maria teve outros filhos?

A Santíssima Virgem Maria não teve outros filhos depois que Jesus nasceu, pois o sacrário que foi o seu corpo para o Filho de Deus não convinha ser utilizado por mais ninguém. O ventre de Maria foi tabernáculo tão somente do Filho de Deus. Também esta parte da verdade de fé da virgindade intacta de Maria mostra uma verdade eterna, que Jesus é o unigênito do Pai. Dito de outra maneira: assim como o Pai só teve um Filho na eternidade, assim também Maria teve somente um Filho no tempo, que é o Filho de Deus, o qual expressa, através da sua unicidade nas entranhas puríssimas de Maria, a sua unicidade a partir das entranhas do Pai eterno. É interessante recordar que toda a vida de Jesus é reveladora das suas relações com o seu Pai eterno e com o Espírito Santo ou, como diziam, os nossos antigos Padres: a economia revela a teologia, ou seja, a história da salvação revela o mistério da vida íntima de Deus.

Ainda que a Escritura diga que Jesus é o primogênito de Maria (cf. Lc 2,7), não quer dizer que ela teve outros filhos, uma vez que os primogênitos, na tradição judaica, sempre foram destacados, por possuírem uma dignidade na qual permanece as bênçãos familiares. Que Jesus seja o primogênito de Maria não significa que ela teve outros filhos porque, suponhamos, qualquer mulher que tivesse o primeiro filho e depois não conseguisse ter mais nenhum, aquele único filho continuaria a ser o seu primogênito. É importante, portanto, não tirar conclusões precipitadas de uma única passagem; é preciso que olhemos sempre o conjunto das Escrituras, entendo as palavras no contexto da mesma literatura bíblica.

É verdade que a Escritura fala que Jesus tinha irmãos (cf. Mc 6,3), mas não diz que eles são filhos de Maria. Como é sabido, a palavra “primo” não existe nas línguas de Jesus, hebraico e aramaico, por isso o texto grego do Novo Testamento pode manter o gosto do idioma original ao não traduzir em grego a palavra primo, mas manter, mesmo em grego a palavra “irmão”. Efetivamente, entre os judeus, “irmãos” não somente aqueles que nascem dos mesmos pais (cf. Gn 4,9; 42,15), mas também os parentes (Gn 13,8), as pessoas de uma mesma tribo e até mesmo os membros da natureza humana (cf. Gn 9,5; 2 Sm 19,12; Ex 2,11). O Novo Testamento chama “irmãos” os que tem a mesma fé (cf. Jo 5,1; At 10,23; Cl 1,2).

Tiago, José, Judas e Simão são os chamados “irmãos” de Jesus (cf. Mc 6,3), porém fica claro em outras passagens que eles tinham outras mães, que não era a Santíssima Virgem Maria. Mt 27,56 menciona uma Maria que é mãe de Tiago e de José, mas em Jo 19,25 essa Maria é a esposa de Cléofas. É interessante observar também que há várias “Marias” nesta passagem. Portanto, só podemos entender de qual Maria são os filhos em uma leitura bem atenta e no entendimento da Tradição segundo a qual Maria, a mãe de Jesus, como é chamada no Evangelho, não teve outros filhos. Sendo assim, Maria e Cleofas são os pais de Tiago, de José e de Judas, pois o autor da Epístola de Judas diz de si mesmo que ele é irmão de Tiago (Jd 1,1). Fica apenas Simão para sabermos quem são seus pais, dos quais a Escritura não fala.

Por outro lado, quando Jesus tinha doze anos, a família de Nazaré aparece constituída somente por ele, por Maria e por José (cf. Lc 2,41-52) e, no final de sua vida terrestre, Jesus confia Maria a João, seu discípulo, um dos filhos de Zebedeu e de (Maria) Salomé. Acaso não seria mais lógico e mais familiar confiá-la ao seu irmão se Maria tivesse outro filho? Se a confiou a João, trata-se de mais uma prova de que Maria não tinha outros filhos.

(Livro interessante para a leitura: Scott HAHN, Salve, Santa Rainha. A mãe de Deus na palavra de Deus, São Paulo: Cléofas, 2015, 144 p.)

Pe. Dr. Françoá Costa

Curso de Apologética, 23/25

Faculdade Católica de Anápolis – 11/2019

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